Sobre como decidi criar esse blog.

By digodiz

Hoje a tarde eu fui abordado na rua por um cara:

“Oi, será que eu posso falar um pouco sobre a importância de Jesus na sua vida?”

“Olha. Eu não acredito muito, mas pode falar”

O que se desencadeou foi um texto dinâmico, riquíssimo em analogias, decorebas e trocadilhos. Prestei o máximo de atenção que consegui, mas discordei de cada palavra que saía da boca dele. Todos os argumentos se convertiam para a noção de Deus como a grande entidade superior que tudo vê, tudo sabe e tudo decide. Os poucos comentários que soltei para tentar tornar a conversa mais pessoal eram negados. ”Não são minhas palavras, são Jesus. Não fui eu que te parei aqui, foi Deus” e por aí vai. Evitei falar. Escutei. Só quando ele disse que ia fazer uma oração pra eu repetir junto eu disse que não faria. Ele me cumprimentou com um aperto de mão dos mais longos da minha vida e se despediu agradecendo que eu no mínimo parei para ouví-lo.

Durante toda a conversa eu fiquei pensando o que naquela experiência eu poderia converter em aprendizado. Sinceramente, das palavras dele acho que nada, mas da situação em si e da conversa que tive com P. depois, acho que algumas coisas. Ela me conhece bem o suficiente pra saber que eu teria argumentos para discutir com aquele cara por horas e perguntou por que não o fiz. Respondi que acharia uma total perda de tempo. Sei que a ilusão que tomou conta dele é envolta por livros, autoridades, construções e mais uma série de signos e símbolos milenares que não seriam derrubados com facilidade. Porém, P. insistiu que aquele era um momento de disseminar as minhas idéias assim como ele fazia com as dele. Concordei, mas decidi disseminá-las de outro jeito. Criei esse blog. Talvez uma pessoa não queira parar na rua pra me escutar, mas entre aqui para ler o que eu tenho a dizer.

Depois de muitos anos flutuando no ceticismo da vida na megalópole, comecei a separar o útil do inútil antes que esse furação de possibilidades me paralisasse para sempre na indecisão. Não acredito em nenhuma religião, mas tenho noção que as que predominam do nosso lado do globo são as mais responsáveis pela atual situação do planeta. O antropocentrismo do judaismo e do cristianismo construiram um homem hipócrita, que mesmo quando se preocupa com o outro, esquece que o outro não é apenas aquele encarnado no corpo humano. E todas as religiões holísticas, muito disseminadas no oriente e nas comunidades mais primitivas como os índios, estão sendo engolidas pelo nosso estilo egoísta e hedonista de vida. Só religiões antropocentricas poderiam tornar-se uma plataforma para uma nova religião ainda mais nociva que é a do consumismo. E agora que o planeta começa a nos dar provas irrefutáveis da incompatibilidade desso estilo de vida com o equilíbrio da Terra, chegou a hora de parar um pouco pra pensar. Jamais diria que as outras religiões, as holísticas, são as corretas. Não acredito em religiões. Mas com certeza elas são mais avançadas no que diz respeito a compreender a convivência do homem com o meio. Infelizmente o meio sempre perde. Então ganhou a religião que só enxerga o homem. 

Ao contrário do que parece, não quero discutir religiões, inclusive acho que o mundo ainda não sobreviveria sem elas. O problem é a forma como o homem enxerga as coisas. E acho que as religiões são apenas mais um dos muitos recursos que utilizamos para entender o mundo e acabam nos impedindo de o ver como ele realmente é: um sistema a beira do colapso. Esse é único fato que me interessa. Como vamos achar um novo caminho ainda não sei. Sei que não dá pra voltar ao passado, nem esquecer o presente, nem forçar a barra no maldito meio termo do tipo “movemos um bilhão de dólares por ano, mas plantamos X árvores pra compensar”. Isso é ilusão, contradição e hipocrisia. O caminho é outro, é novo e precisa de gente que esteja disposta a abrí-lo. Eu já me candidatei.

 

Tags: , , , , , , , ,

2 Respostas para “Sobre como decidi criar esse blog.”

  1. Renato Disse:

    loco esse texto digo, ele tem varios temas diferentes que daria pra ficar falando, mas o que me chamou mais a atençao foi a ideia de religiao que voce quis passar. Eu intendo a religiao(leis, etica), como “freios” criados por humanos para os outros humanos a fim de limitar e guiar o modo como deve ser levado a vida. A religiao nao é imposta, ela é procurada por pessoas que necessitam algum tipo de suporte, suporte que elas sabem que existe e que nao é fisico.No meio de tudo isso se deparam com um anuncio de curandeiro, sessao de descarrego ou sei la que merda que seja e passa a acreditar de forma dogmatica no que lhes é dito, principalmente por ser a unica maneira que ele arrumou para responder suas perguntas e hoje em dia nessa resposta esta implicito a manipulaçao .
    Abraço

  2. digodiz Disse:

    Pois é. Com certeza um mundo sem religiões seria bem melhor. Para nós, privilegiados, que tivemos muitas oportunidades na vida, parece óbvio que não é necessário acreditar em Deus algum para saber o que é certo ou errado. Mas infelizmente as coisas são muito mais complicadas do que isso. O mundo não está pronto para não ter religiões. Parece contraditório, e é. Exatamente por isso que coloquei esse texto na categoria “indigestão”.

Deixe uma resposta