Uma verdade inconveniente, um final pouco convincente.

Ontem assisti ao filme Uma Verdade Inconveniente, protagonizado pelo ex-futuro presidente dos EUA (como ele mesmo genialmente se apresenta), Al Gore. O filme impressiona.

Confesso que eu já esperava coisa igual ou pior porque de um tempo pra cá tenho me preocupado cada vez mais com a questão ambiental. Mas mesmo assim os dados são assustadores. Utilizando-se de métodos extremamente didáticos e racionais, Al Gore mostra que sabe muitíssimo bem do que está falando, e explica através de dados científicos seríssimos o impacto que causamos no mundo até agora e o que acontecerá se não diminuirmos esse impacto. A previsão é a pior possível.

Não vou falar mais sobre a parte boa do filme. Recomendo muito que todos assistam, principalmente aqueles que ainda acham que é exagero o grau catastrófico esperado das consequências do aquecimento global. Porém é difícil não ficar com uma pulga atrás da orelha nos minutos finais do filme. Seu grande mérito, que é a construção explicativa e lógica que faz jus a utilização da palavra “Verdade” no título, perde força na hora de entrar na solução. Após tantos dados científicos precisos, Al Gore se aproxima no ponto final da questão: “Teremos que optar entre ambiente e economia?”. Ele rapidamente diz que não. Mas dessa vez justifica-se através de uma ilustração infantil que arranca risadas do público e da simples frase “se fizermos a coisa certa, movemos adiante”. Ah Al Gore! Depois de dar uma aula impecável sobre consciência você quer simplificar o problema assim? O caminho que traçamos até aqui não parece complexo o suficiente para deixar termos como “coisa certa” e “adiante” meio vagos demais perto dos argumentos apresentados anteriormente? Mas tudo bem, pensei, talvez seja só a forma de introduzir as soluções. Vamos seguir “adiante”.

É meio difícil de entender. Após uma impressionante construção realista do que está acontecendo, o filme termina capengando em apelos emocionais e dados infinitamente menos convincentes. Após enormes gráficos que chegam a analisar 650 milhões de anos atrás, Al Gore aparece apontando um gráfico de estimativas extremamente subjetivas sobre possíveis métodos de redução na emissão de carbono. Logo na primeira estimativa ele diz: “se usarmos aparelhos eletrônicos mais eficientes podemos reduzir esse tanto de poluição do aquecimento global”. O que é um aparelho eletrônico mais eficiente? E quanto é esse tanto? Depois de tudo que se viu, parece brincadeira usar esses termos para designar alguma quantidade. Mas é assim que se desenrola o apressado final do filme. 

E antes que alguém pense que sou um chato que critica sem motivo, digo que entendo a opção por dar dicas mais viáveis e próximas do dia-a-dia de cada um. Também afirmo que achei o filme muito bom e importantíssimo e até assisti vários trechos duas vezes para entender bem a gravidade da situação. Mas me incomoda um sutil clima de happy end deixado no ar. Precisamos ser mais radicais. Está mais do que na hora de os americanos, como principal responsáveis pelo problema, perceberem que a história do mundo está perto de um final bem diferente dos filmes de Hollywood. Poderia dizer que faltam finais tristes no mundo. Mas acho mais correto dizer que faltam finais realistas. Tem que acabar essa ilusão de que tudo se acerta no final. Por enquanto a chance de se acertar é pequena. E se não mudarmos, se preparem. As imagens que veremos serão mil vezes mais chocantes e realistas do que qualquer gráfico ou filme que foi feito até hoje.

 

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3 Respostas para “Uma verdade inconveniente, um final pouco convincente.”

  1. Priscilla Disse:

    Gostei do final do texto…
    Mas sejamos sinceros, ESTÁ MUITO MAL ESCRITO!!!

    (Brincadeira, foi só pra não dar um fim Hollywoodiano!)

  2. João Disse:

    Al Gore quer esfriar o mundo e esquentar sua imagem no vácuo do assunto da moda, a questão ambiental. Oito anos como vice do Clinton e nunca fez MERDA - homenagem ao blog - para mudar a política ambiental dos gringos. Até o Nobel já se rendeu a boa e velha politicagem!

  3. Castro Disse:

    Eu não vi o filme mas acho que este fato não invalida minha opinião. Sem dúvida este filme é uma das mais ambiciosas campanhas de mkt realizadas na política (não que eu tenha um vasto conhecimento sobre o tema, mas esta sem dúvida salta aos olhos). Depois de Hitler, claro. Sem dúvida (pela descrição) o filme não poderia deixar de atender o formato da Hollywoodiano da produção cultural Americana, final feliz com lição simplista e bem humorada no final. Sem dúvida, um americano, impulsionador do consumismo em vigor no ocidente adoraria ouvir que tudo pode se resolver como nas soap operas. Golaço, como diria meu amigo que escreveu acima.

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