Ontem foi um daqueles dias em que minha bolha particular estourou por alguns minutos. Tinha acabado de entrar no estúdio para ensaiar com a minha banda quando o vocalista falou:
“Puts. Esqueci as letras das músicas no carro.”
O moleque saiu pra pegar e um minuto depois voltou totalmente na nóia. O carro dele tinha sido assaltado. Cinco minutos na rua foi o suficiente. Só não levaram o carro embora porque ele tinha uma daquelas travas de segurança de aço que mantém a marcha ré engatada. Não lembro o nome dessa parada, mas não é a primeira vez que ela salva o carro do infeliz. Gol é foda. Esse amigo já foi assaltado várias vezes.
Detalhe: portas, vidros e fechaduras intactas. O crime é cirúrgico. Talvez alguém que trabalha honestamente montando e desmontando fechaduras de Gol, de repente decidiu “vender” seus ensinamentos ou simplesmente praticá-los por aí. “Eu sei abrir Gols sem deixar nenhum vestígio. Quer aprender? Metade do que você levar é meu”. Ficção é claro, sei lá como essas coisas acontecem. Mas existe uma arquitetura nesse crime. Isso é óbvio.
Uma hora e meia depois, na saída do estúdio, vimos três caras na esquina. Nem cogitamos que poderia ter sido um deles, os ladrões já estavam longe, tínhamos certeza disso. Foi o que pensamos até eles soltarem uma provocação/ameaça despretensiosa. Um grito ao longe. Não ofereceu perigo. Mas mostrava que aquela noite estava bem ameaçadora. E como se fosse um filme, ao voltar pra casa vi um movimento suspeito bem acima do normal tomar conta das ruas como se avisasse: aqui é São Paulo, meu amigo. E eis a grande pergunta: será que a noite era anormal ou eu que abri os olhos e saí um pouco da bolha? Acho que não preciso nem responder.
No caminho, resolvi fazer um teste analítico só pra confirmar a já gritante realidade. Moro numa região nobre cidade. E ao passar por uma rua que é uma espécie de fronteira entre o meu bairro e o do lado, que é um pouquinho pior (e mesmo assim muito bom), lembrei de como a realidade se esconde em São Paulo. As guaritas na calçada, cada vez mais comum nos bairros ricos, são o símbolo perfeito da dualidade paulistana. Por um lado representam segurança, mas por outro denunciam um aperfeiçoamento bizarro do subemprego dos seguranças de rua. Minha casa tem uma guarita na frente e já foi assaltada. Tudo na miúda, ninguém sabe quem foi. Mas em São Paulo é assim mesmo, tudo velado. Não é como no Rio que tem tiroteio em área nobre, prédio rico no pé do morro da favela, mistureba total. Aqui são eles lá, nós aqui. Periferia, distância, focos de violência. Tudo mentira. Eu apliequei o teste e acreditem se quiser meus amigos. Medi a quilometragem e fiz as contas. Nessa rua da qual lhes falo existem 8 guaritas. E a rua tem apenas 1.200 metros. Quer a média? Uma guarita a cada 150 metros. Sacou a paranóia paulistana?
Ninguém descreve tão bem essa paranóia quanto os geniais Racionais Mc’s. Musicaram com perfeição a cruel mentalidade do paulistano e o vergonhoso clima de teatro nas nossas ruas. Se aqui a violência é menos desumana que no Rio, também é bem menos realista. Um grande baile de máscaras. Cada um no seu papel. E a vida continua. Até que a bolha nos separe.
Coincidência ou não, adivinha que banda escutávamos momentos antes do assalto ao carro do meu amigo. Hum…
A vida é loka mesmo.
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7 Maio, 2008 às 4:28 pm |
Isso sem contar o cara completamente bêbado que nos surpreendeu na hora que saíamos do estúdio. Mal conseguindo ficar em pé ele insisita em pedir um cigarro pro quase-assaltado que, mesmo dizendo que não fumava, foi bem intimidado pelo cidadão. Minha volta pra casa também foi bem acelerada e querendo chegar em casa logo. Há uma semana atrás o carro da namorada do meu primo – um gol – foi assaltado na porta do meu prédio. A polícia encontrou o carro no dia seguinte abandonado e completamente queimado. A suspeita? A polícia acha que eles queimaram alguém junto no porta-malas. Que tal?