Posts Tagged ‘Amazônia’

2008, ainda existem tribos intocadas.

30 maio, 2008

 

Sempre posto nesse blog coisas sobre o meio ambiente e uma ou duas vezes toquei no assunto (complicadíssimo) dos conflitos entre os índios e o homem civilizado. Confesso que ainda sei pouco, mas essa semana saiu uma notícia nos jornais que me fez pensar novamente nessa questão. Lembro mais de uma vez ter discutido (sem fundamento) com pessoas (também sem fundamento) se ainda existiam ou não comunidades totalmente isoladas da civilização. As pessoas com quem discuti falavam que não, tinham certeza disso, imagine, o homem branco já chegou em todos lugares, não há o que fazer. Eu não, sempre achei que havia exceções. E há.

 

Vi ontem na UOL e hoje no Estadão pequenas reportagens com fotos inéditas de um grupo indígena no Acre que nunca teve contato com a civilização (salvo para os mais chatos que podem dizer que eles tiveram ao avistar o avião que os fotografou). As fotos mostram os índios como gostaríamos de imaginá-los, pintados com urucum dos pés à cabeça, seminus e morando em malocas. Na foto acima, os membros da tribo aparecem apontando flechas para o avião e o especialista no assunto, José Carlos Meirelles Júnior, que coordenou a operação da FUNAI responsável pelas fotos, deu um interessante depoimento dizendo que “enquanto eles estiverem nos recebendo a flechadas, e eu já levei uma na cara, estarão bem. O dia que ficarem bonzinhos, já eram”. Grande parte dessas tribos (a da foto é um exemplo) são cada vez mais ameaçadas por atividades predatórias como a exploração ilegal de madeira e a invasão de terras. Meirelles só divulgou as fotos para alertar as autoridades para essa questão. Se depender dele, essas tribos não entrarão em contato com a civilização nunca.

 

Os números impressionam. Meirelles diz que já foi confirmada a existência de mais de 20 grupos isolados no Brasil, mas que dada a extensão da Amazônia, esse número pode chegar a 40. Esses 40 representariam 40% das tribos isoladas do mundo todo, visto que a estimativa mundial é de 100 grupos isolados.

 

Esse assunto é muito mais importante do que parece no momento atual que vivemos. E mais importante ainda num país como o Brasil. Estamos falando de um país onde 12,5% do território pertence legalmente aos índios. Estamos falando de mais de meio milhão de pessoas que vivem em aldeias (isoladas ou não) na floresta amazônica. Estamos falando de uma floresta que é de muito longe a maior do mundo e tem 65% de seu território dentro do nosso país. Estamos falando da Amazônia Legal que ocupa literalmente metade do território brasileiro. Estamos falando de um território que já tem e terá cada vez mais valor num futuro próximo e nas tomadas de decisão do Brasil e do mundo. E por último o ponto onde quero chegar, estamos falando dos habitantes nativos dessa floresta, especialistas centenários em desenvolvimento sustentável e exploração consciente da natureza.

 

O contato é evitável ou inevitável? É necessário ou desnecessário? Não me arrisco a dizer. O que é sabido é que as aldeias que já mantém contato constante com as cidades apresentam muito mais problemas do que soluções, portanto a atitude a ser tomada em relação às poucas ainda intocadas deve ser mais cautelosa do que nunca. Tomara que exista cada vez mais pessoas como Meirelles, empenhadas nessa causa.

 

 

 

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Remando contra a maré.

19 maio, 2008

Quando comecei a me informar sobre a situação do desmatamento na amazônia, me deparei com uma série de depoimentos conflitantes entre os diferentes ministros e tive impressão que algumas questões são tão antagônicas que viram um papo de doido, com cada um tentando defender o seu lado e não chegando a nenhuma solução. Parece que eu não me enganei. E parece que o lado da Marina Silva (ministra do Meio Ambiente) não aguentou. Após 5 anos e meio remando contra a maré da economia, ela renunciou o cargo.

A Ministra era conhecida no Brasil e no mundo por ser ferrenha defensora da natureza e da amazônia, e realmente não abriu mão de nenhuma de suas metas em função de qualquer iniciativa que pudesse prejudicar o meio ambiente. Alguns dizem que ela era muito radical e que sua saída pode facilitar o estabelecimento de um meio termo entre os objetivos econômicos e ambientais. Os principais jornais do mundo não enxergaram assim. A notícia foi 100% ruim do ponto de vista internacional. 

Mas do ponto de vista desse meio termo, o Carlos Minc, novo ministro, pode ser uma boa. Como secretário de Meio Ambiente do RJ, ele surpreendeu alcançando metas em tempo recorde e surpreendeu mais ainda os que o conheciam por ser um ambientalista radical. Seu mandato mostrou que mudou. Aparentemente alcançou esse tal meio termo.

Agora fica a pergunta: será que o meio termo do Carlos Minc era o que faltava a Marina Silva? É muito difícil dizer. Mas se todos já sabem que o aquecimento global é um problema consumado, é uma corrida contra o relógio e 70% da emissão de carbono do Brasil provém das queimadas de floresta, é mais difícil ainda dizer que não perdemos uma batalha importante.

Não torço contra. Se mesmo com as oposições, Marina Silva conseguiu dar alguns passos consideráveis, tenho certeza que Carlos Minc conseguirá dar mais alguns. Só torço para que não abra mão da natureza em função da economia, o que parece ser cada vez mais impossível.

Trazendo a expressão “abrir mão” para seu sentido literal, o desenho abaixo resume bem o rumo que a humanidade está tomando. A diferença é que no desenho é só mais um homem. No nosso caso é o planeta inteiro.

Olha o naipe da cagada…

30 abril, 2008

O começo da dor de barriga

 

De um lado a crise alimentar é uma realidade cada vez mais gritante. Do outro, o desmatamento precisa parar e só cresce. As áreas já desmatadas não tem produtividade o suficiente. Mas também não podemos desmatar mais. Eu poderia ficar horas nessa ciranda maluca. Preferi só postar um pequeno apanhado de dados que fiz em apenas meia hora. Se não sabemos o que fazer, pelo menos vamos começar com duas atitudes:

 

Parar. Pensar.

 

O quanto a cagada está crescendo

Já vem de algum tempo. Um relatório do Banco Mundial aponta que, entre 2000 e 2005, o Brasil desmatou um total de 31 mil km² de sua área florestal, o que nos torna líderes absolutos de desmatamento no mundo. O foco principal da cagada agora é no Mato Grosso e Pará, com destaque para o primeiro. Os dados mais recentes apontam que a área desmatada nos dois Estados passou de 77 km2, de janeiro a março de 2007, para 214 km2 no mesmo período deste ano, dos quais 149 km2 foram em Mato Grosso. O levantamento foi feito pela organização não-governamental Imazon usando imagens de satélites.

Imagina o tamanho dos buracos que se vê lá de cima.

Os responsáveis pela indigestão

Como eu disse anteriormente, o desmatamento vai muito além do comércio de madeira ilegal e envolve questões delicadíssimas como a necessidade de produção de alimentos. Tem muita politicagem no meio. Mas se liga só nessa notícia publicada hoje:

A Polícia Federal deflagrou ontem, em 14 municípios de Mato Grosso, uma operação para combater a extração e o comércio ilegal de madeira. Dos 67 mandados de prisão expedidos pela Justiça Federal, 29 se referiam a servidores de órgãos públicos como a Sema (Secretaria Estadual do Meio Ambiente), a Dema (Delegacia Estadual do Meio Ambiente), o Indea (Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso) e a Polícia Rodoviária Federal.

O barraco está armado. E é armamento pesado.

Quem está sentado no trono

Blairo Maggi (governador do Mato Grosso) controla um quarto das 36 cidades apontadas pelo ministério como as campeãs do desmatamento. Veja a opinião dele sobre o assunto e sobre a recente projeto de Zoneamento Sócio-Econômico-Ecológico do Estado:

 

“Com o agravamento da crise de alimentos, chegará a hora em que será inevitável discutir se vamos preservar o ambiente do jeito que está ou se vamos produzir mais comida. E não há como produzir mais comida sem fazer a ocupação de novas áreas e a retirada de árvores.”

 

Marina Silva (ministra do Meio Ambiente, que não por acaso já teve muitos desentendimentos com o Sr. Maggi), Tatiana Abreu Sá (diretora-executiva da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e Paulo Adário (coordenador da campanha Amazônia do Greenpeace) não pensam assim. A tecnologia já existe, está ao nosso alcance e pode evitar o desmatamento. É evidente que isso leva tempo, mas talvez esse tempo fosse menos prejudicial se, além de tudo isso, o nosso amigo Maggi não fosse o tipo de gente que em plena campanha contra o desmatamento vai a Brasília tentar convencer o Lula a reduzir as restrições impostas ao seu Estado e questionar os dados que apontam a atrocidade que vem acontecendo.

 

No mínimo suspeito.  

 

Enquanto isso, no lustre do castelo

 

O Greenpeace faz protesto diante da embaixada brasileira em Berlin. Será que não tem ninguém um pouco mais perto que queira ajudar, não?

 

A cagada está no ar. E tem cheiro de queimado.