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Remando contra a maré.

19 maio, 2008

Quando comecei a me informar sobre a situação do desmatamento na amazônia, me deparei com uma série de depoimentos conflitantes entre os diferentes ministros e tive impressão que algumas questões são tão antagônicas que viram um papo de doido, com cada um tentando defender o seu lado e não chegando a nenhuma solução. Parece que eu não me enganei. E parece que o lado da Marina Silva (ministra do Meio Ambiente) não aguentou. Após 5 anos e meio remando contra a maré da economia, ela renunciou o cargo.

A Ministra era conhecida no Brasil e no mundo por ser ferrenha defensora da natureza e da amazônia, e realmente não abriu mão de nenhuma de suas metas em função de qualquer iniciativa que pudesse prejudicar o meio ambiente. Alguns dizem que ela era muito radical e que sua saída pode facilitar o estabelecimento de um meio termo entre os objetivos econômicos e ambientais. Os principais jornais do mundo não enxergaram assim. A notícia foi 100% ruim do ponto de vista internacional. 

Mas do ponto de vista desse meio termo, o Carlos Minc, novo ministro, pode ser uma boa. Como secretário de Meio Ambiente do RJ, ele surpreendeu alcançando metas em tempo recorde e surpreendeu mais ainda os que o conheciam por ser um ambientalista radical. Seu mandato mostrou que mudou. Aparentemente alcançou esse tal meio termo.

Agora fica a pergunta: será que o meio termo do Carlos Minc era o que faltava a Marina Silva? É muito difícil dizer. Mas se todos já sabem que o aquecimento global é um problema consumado, é uma corrida contra o relógio e 70% da emissão de carbono do Brasil provém das queimadas de floresta, é mais difícil ainda dizer que não perdemos uma batalha importante.

Não torço contra. Se mesmo com as oposições, Marina Silva conseguiu dar alguns passos consideráveis, tenho certeza que Carlos Minc conseguirá dar mais alguns. Só torço para que não abra mão da natureza em função da economia, o que parece ser cada vez mais impossível.

Trazendo a expressão “abrir mão” para seu sentido literal, o desenho abaixo resume bem o rumo que a humanidade está tomando. A diferença é que no desenho é só mais um homem. No nosso caso é o planeta inteiro.

Uma verdade inconveniente, um final pouco convincente.

29 abril, 2008

Ontem assisti ao filme Uma Verdade Inconveniente, protagonizado pelo ex-futuro presidente dos EUA (como ele mesmo genialmente se apresenta), Al Gore. O filme impressiona.

Confesso que eu já esperava coisa igual ou pior porque de um tempo pra cá tenho me preocupado cada vez mais com a questão ambiental. Mas mesmo assim os dados são assustadores. Utilizando-se de métodos extremamente didáticos e racionais, Al Gore mostra que sabe muitíssimo bem do que está falando, e explica através de dados científicos seríssimos o impacto que causamos no mundo até agora e o que acontecerá se não diminuirmos esse impacto. A previsão é a pior possível.

Não vou falar mais sobre a parte boa do filme. Recomendo muito que todos assistam, principalmente aqueles que ainda acham que é exagero o grau catastrófico esperado das consequências do aquecimento global. Porém é difícil não ficar com uma pulga atrás da orelha nos minutos finais do filme. Seu grande mérito, que é a construção explicativa e lógica que faz jus a utilização da palavra “Verdade” no título, perde força na hora de entrar na solução. Após tantos dados científicos precisos, Al Gore se aproxima no ponto final da questão: “Teremos que optar entre ambiente e economia?”. Ele rapidamente diz que não. Mas dessa vez justifica-se através de uma ilustração infantil que arranca risadas do público e da simples frase “se fizermos a coisa certa, movemos adiante”. Ah Al Gore! Depois de dar uma aula impecável sobre consciência você quer simplificar o problema assim? O caminho que traçamos até aqui não parece complexo o suficiente para deixar termos como “coisa certa” e “adiante” meio vagos demais perto dos argumentos apresentados anteriormente? Mas tudo bem, pensei, talvez seja só a forma de introduzir as soluções. Vamos seguir “adiante”.

É meio difícil de entender. Após uma impressionante construção realista do que está acontecendo, o filme termina capengando em apelos emocionais e dados infinitamente menos convincentes. Após enormes gráficos que chegam a analisar 650 milhões de anos atrás, Al Gore aparece apontando um gráfico de estimativas extremamente subjetivas sobre possíveis métodos de redução na emissão de carbono. Logo na primeira estimativa ele diz: “se usarmos aparelhos eletrônicos mais eficientes podemos reduzir esse tanto de poluição do aquecimento global”. O que é um aparelho eletrônico mais eficiente? E quanto é esse tanto? Depois de tudo que se viu, parece brincadeira usar esses termos para designar alguma quantidade. Mas é assim que se desenrola o apressado final do filme. 

E antes que alguém pense que sou um chato que critica sem motivo, digo que entendo a opção por dar dicas mais viáveis e próximas do dia-a-dia de cada um. Também afirmo que achei o filme muito bom e importantíssimo e até assisti vários trechos duas vezes para entender bem a gravidade da situação. Mas me incomoda um sutil clima de happy end deixado no ar. Precisamos ser mais radicais. Está mais do que na hora de os americanos, como principal responsáveis pelo problema, perceberem que a história do mundo está perto de um final bem diferente dos filmes de Hollywood. Poderia dizer que faltam finais tristes no mundo. Mas acho mais correto dizer que faltam finais realistas. Tem que acabar essa ilusão de que tudo se acerta no final. Por enquanto a chance de se acertar é pequena. E se não mudarmos, se preparem. As imagens que veremos serão mil vezes mais chocantes e realistas do que qualquer gráfico ou filme que foi feito até hoje.