Posts Tagged ‘São Paulo’

O lado B da paranóia.

8 maio, 2008

Como toda história tem um lado B, não poderia deixar de expor o outro ponto de vista que passou na minha cabeça sobre a tentativa de roubo descrita no post abaixo “Paranóia paulistana”. Quem não leu, leia para entender esse post. Esse lado B é o ponto de vista das pessoas de um nível econômico bem inferior.

Primeiro, não poderia deixar de falar que o Racionais MC’s que escutávamos antes do ensaio era tocado em alto e bom som, com as portas do carro abertas, na calçada do estúdio, às 11 horas da noite. Segundo, não poderia omitir que apesar de tentarmos evitar fazer isso, aquele dia viemos em vários carros diferentes. E terceiro e último, os 3 caras que estavam na esquina quando saímos do ensaio, dos quais suspeitamos depois, poderiam já estar ali aquela hora, e nem os vimos. E o que será que eles, como representantes do lado B, se perguntariam ao ver aquela cena?

LADO B

1 – Pra quê ostentar e exibir o carro na calçada?

2 – Pra quê vir em vários carros se poderiam vir em um só?

3 – Pra quê a música alta?

4 – E por quê ainda por cima Racionais, a banda que mais critica esse tipo de atitude?

E respondo uma a uma:

LADO A

1 – Não ostentamos nada. Um cara da banda que chegou por último não tinha onde parar porque as vagas estavam ocupada, então ficamos alguns minutos na calçada sem saber o que fazer.

2 – Tentamos evitar vir em mais de um carro. Mas alguns dias é impossível conciliar caronas. E esse foi um desses dias.

3 – O som estava no mesmo volume que o próprio motorista já estava escutando sozinho e de vidros fechados. Realmente, aquela hora da noite, foi um vacilo. Mas só pra quem mora ali perto. Para os caras da esquina nunca incomodaria pelo volume, só pela atitude.

4 – É óbvio que eu não precisaria nem justificar porque escutávamos Racionais. Mas só pra exercitar a dialética respondo que era um CD de músicas diversas. Foi mera coincidência.

De forma alguma pretendo inverter a culpa da cagada. É óbvio que quem quer que seja o cara que tentou roubar aquele carro, ele está mais errado do que nós com nosso comportamento diante do estúdio. Mas esse é apenas mais um exemplo de como todos esses níveis de interpretação possíveis numa cidade de bizarra desigualdade como São Paulo podem provocar o tipo de paranóia que eu tentei descrever no post anterior. Vou explicar melhor…

Já nos acostumamos com as orgias de consumo explícitas e nojentas da sociedade atual. Exemplo mais fácil: os alienados que compram carros 4×4 gigantescos e nunca vão colocá-los em estrada alguma, simplesmente porque não querem usar o carro para chegar nas paisagens em que ele estava estacionado no anúncio da resvista, e sim para chegar aos seus escritórios onde trabalharão mais ainda pra comprar outro 4×4 gigantesco. Essa hora muita gente deve estar puta comigo, achando que generalizei ou que o cara que tem grana pode comprar o que quiser. Tá bom. Mas e os que não tem? Como é que eles devem se sentir testemunhando tudo isso? Não parece óbvio que esses exageros do consumismo são o melhor alimento para sentimentos como a raiva e a inveja? E isso apenas para os inconformados passivos. Na cabeça dos mais perversos pode virar vingança.

Não estou pagando de defensor dos bandidos não. Mas quem está por cima tem que assumir a responsabilidade de ocupar essa posição. Existe algo chamado consumo consciente, e isso vale pra qualquer um que está preocupado em evitar a destruição do planeta. Pra aqueles que vão um pouco mais além, também serve pra evitar as injustiças do hedonismo egoísta e da ostentação. Principalmente num país como o nosso, onde não dá pra agir como se o lado B não existisse.

Para os que ainda não perderam o preconceito musical, insisto: escutem Racionais MC’s. Quem não entende do que falei nesse post, vai entender quando escutar.

Paranóia paulistana.

7 maio, 2008

Ontem foi um daqueles dias em que minha bolha particular estourou por alguns minutos. Tinha acabado de entrar no estúdio para ensaiar com a minha banda quando o vocalista falou:

“Puts. Esqueci as letras das músicas no carro.”

O moleque saiu pra pegar e um minuto depois voltou totalmente na nóia. O carro dele tinha sido assaltado. Cinco minutos na rua foram o suficiente. Só não levaram o carro embora porque ele tinha uma daquelas travas de segurança de aço que mantém a marcha ré engatada. Não lembro o nome dessa parada, mas não é a primeira vez que ela salva o carro do infeliz. Gol é foda. Esse amigo já foi assaltado várias vezes.

Detalhe: portas, vidros e fechaduras intactas. O crime é cirúrgico. Talvez alguém que trabalhava montando e desmontando fechaduras de Gol, decidiu “mudar de profissão”. E com certeza ganha mais agora.

Uma hora e meia depois, na saída do estúdio, vimos três caras na esquina. Nem cogitamos que poderia ter sido um deles, os ladrões já estavam longe, tínhamos certeza disso. Foi o que pensamos até eles soltarem uma provocação/ameaça despretensiosa. Um grito ao longe. Não ofereceu perigo. Mas mostrava que aquela noite estava meio esquisita. E como se fosse um filme, ao voltar pra casa vi um movimento suspeito bem acima do normal tomar conta das ruas como se avisasse: aqui é São Paulo, meu amigo. E eis a grande pergunta: será que a noite era anormal ou eu que abri os olhos e saí um pouco da bolha? Acho que não preciso nem responder.

No caminho, resolvi fazer um teste analítico só pra confirmar a já gritante realidade. Moro numa região nobre da cidade. E ao passar por uma rua que é uma espécie de fronteira entre o meu bairro e o do lado, que é um pouquinho pior (e mesmo assim muito bom), lembrei de como a realidade se esconde em São Paulo. As guaritas na calçada, cada vez mais comum nos bairros ricos, são o símbolo perfeito da dualidade paulistana. Por um lado representam segurança, mas por outro denunciam um aperfeiçoamento bizarro do subemprego dos seguranças de rua. Minha casa tem uma guarita na frente e já foi assaltada. Tudo na miúda, ninguém sabe quem foi. Mas em São Paulo é assim mesmo, tudo velado. Não é como no Rio que tem tiroteio em área nobre, prédio rico no pé do morro da favela, mistureba total. Aqui são eles lá, nós aqui. Periferia, distância, focos de violência. Tudo mentira. Eu apliquei o teste e acreditem se quiser meus amigos. Medi a quilometragem e fiz as contas. Nessa rua da qual lhes falo existem 8 guaritas. E a rua tem apenas 1.200 metros. Quer a média? Uma guarita a cada 150 metros. Sacou a paranóia paulistana?

Ninguém descreve tão bem essa paranóia quanto os geniais Racionais Mc’s. Musicaram com perfeição a cruel mentalidade do paulistano e o vergonhoso clima de teatro nas nossas ruas. Se aqui a violência é menos desumana que no Rio, também é mais hipócrita. Um grande baile de máscaras. Cada um no seu papel. E a vida continua. Até que a bolha nos separe.

Coincidência ou não, adivinha que banda escutávamos momentos antes do assalto ao carro do meu amigo. Hum…

Acho que não preciso nem responder…